quarta-feira, 5 de junho de 2013

Hipermodernidade e Narcisismo

  
  2012, 2013... Foram os anos em que comecei a notar o nosso narcisismo hipermoderno. Mea culpa. Nossa culpa.

   Leituras de Freud, Bauman, Jung, Sennet e alguns outros, somadas a algumas reflexões, fizeram-me pensar sobre o problema maior de nossos tempos: o olhar-se apenas para si mesmo.

  Em projeções e idealizações (na e da realidade), deixamos de aproveitar aquilo que a vida nos oferece DE FATO, apenas tomando o real nas partes que nos interessam, com um modo de vida conveniente, sem comprometimento e, por isso mesmo, destrutivo.

  Segundo essa nossa concepção - equivocada -, pensamos sempre poder encontrar "algo melhor", seja esse algo um trabalho, uma amizade, um relacionamento afetivo, amoroso. Daí que, nessa sanha desenfreada em busca do "sempre mais e melhor", deixamos de viver a vida real - aquela em que muitos dias não serão mesmo tão bons, em que ônibus atrasa ou o namorado(a) está de mau humor.

  A perversão praticada por esse "amor líquido" (que não quer se enlaçar, mas apenas se conectar e se desconectar), como diria Bauman, é filha desse desejo de eterno gozo, em que o prazer e a realização do orgasmo (em suas várias formas) aparece como único e final objetivo da vida.

  Centrados apenas em nossos smartphones, em nossos egos e idealizadas expectativas, nada, NUNCA, poderá bastar. Acompanhando o ritmo do capital financeiro, nossa libido sempre quer, hoje em dia, "escolher a melhor opção" de investimento, o que nos torna somente pobres mercadores - de nós mesmo e do outro. E isso, é claro, jamais poderá ser amor.

  Enquanto não retomarmos o sentido do COMPROMETIMENTO - e das dificuldades que, SIM, sempre vêm com ele -, estaremos presos ao "pathos" eterno, ao gozo que não traz envolvimento ou profundidade. Continuaremos a ser infantis e superficiais, incapazes de amar, de colocar libido e dedicação em UM, em alguém ou em algo que faça a existência valer a pena.

 
 
Caso nos mantenhamos voltados para o espelho d'água, esse rio traiçoeiro nos vencerá, fazendo-nos vítimas desse, ainda hoje inconscientemente idolatrado, pobre Narciso.