sexta-feira, 5 de abril de 2013

Artistas

     
    Parece que eu sempre soube que nada disso faria sentido. Sou um cara viciável. Eis que consumo a mim mesmo, em caracteres, megapixels, e maus caráteres. Dentre os quais sou apenas mais um, talvez até o mais hipócrita, o primogênito, o primeiro.

    Culpado de todo o meu ateísmo (até ele vacilante), e da completa falta de foco, minha amiga inseparável. Saímos sempre para jantar, eu e ela, como par atabalhoado. Noites sim, madrugadas não, podem-se ouvir risos sussurados ao nosso redor, aquela espécie de maledicência um tanto quanto furtiva, dita a canto de boca, sem que se possa determinar quem é o seu autor. Minha sina - a minha e de minha amiga Confusão - é ser vítima do escárnio social, sempre um tanto quanto rude, ainda que velado pela "misericórdia" de uma certa hipocrisia que se diz cristã.

   Certo é, porém, que não me encontro totalmente só e nem privilegiado por essa estranha condição, pois há por aí ao menos uma meia dúzia de amigos meus que sofrem o mesmo tormento.

    Chamamo-nos artistas, e, de fato, é isso que somos, em período integral, ainda que hipotequemos nossos sonhos, antes que nasçam os pores-do-sol. Ao badalar do sino de nossa Igreja, todos sabemos que é hora de nos consagrarmos, de devotarmos nossas vidas ao sacro ofício inteiro da Arte, tão logo nos dispamos da lida pelos meios de sobrevivência.

   Na vida dos grandes artistas, de grandes intelectuais e de pensadores, quase sempre há um período de vacas magras, e, muitas vezes, até de fome. Difícil conceber um van Gogh a passar necessidade, a sofrer por ter o estômago dolorosamente vazio. Mas isso ocorreu. Sabemos, porém, que nem só de pão vive o ser humano. Existir é mais. Para um artista, então, sempre é muito mais.

    Diante do fato de que nós, artistas, somos todos umas putas melancólicas, sempre meio embriagadas e recém-usadas, largadas ao canto de um bordel qualquer, podemos tomar consciência de nosso papel, do papel conservador ao qual todos nós seremos convidados a exercer, na pós-modernidade. Mas os artistas de verdade, autênticos, devem recusar tal carapuça, sob pena de, caso a ela sucumbam, tornarem-se caricaturas de si mesmos.

    Nisso que digo não há nada de novo, muito menos de peculiar à nossa tão esvaziada época. Pois sempre foi promíscua a relação entre artistas e pensadores, por um lado,  e detentores do poder, por outro.

   Michelângelo, Mozart, Maquiavel, Confúcio, Kant, Wagner, Voltaire - apenas para iniciar uma lista que seria imensa -, todos foram, uns mais, outros menos, alavancados ou sustentados por ricos e poderosos mecenas. Talvez porque seja mesmo muito difícil plantar e pescar de dia e, depois, criticar à noite, como queria Marx. O homem ominilateral talvez esteja mesmo fadado à mediocridade. E é bem aqui que eu reencontro minha companheira de banquetes.

     A rainha Confusão, filha-irmã de Dispersa (essa esposada por Caos), jamais se afasta do artista. Porque somos sempre meio irreais, esquizoides, psicóticos. Não se pinta a Capela Sistina com o "princípio de realidade" debaixo do braço; muito menos se escreve um Fausto ou uma Divina Comédia tendo o tédio do limite por companhia. Não. Definitivamente, não.

     Pois artistas são infantis, são mimados e noturnos. Podem até, vez por outra, tomar parte nas conversas e nas preocupações comezinhas, das bocas pequenas, mas nunca mergulham completamente no mundo do banal. Mantêm sempre o olhar voltado para o incrivelmente alto... Ou para o grotescamente baixo. E isso é o que de mais sincero e excelente um artista pode fazer. Pois ele pode ser tudo, menos comum.

       Todo verdadeiro artista tem o dever de ser-se. Sempre.


3 comentários:

  1. Amei, meu querido.
    Amei muito e tudo.

    E sobre você, menino artista, confuso e gerador de confusão.... SEJA.
    Seja o que quiser, seja tudo, seja o que for.
    Seja o que já é, não o que querem ou queriam que fosse, seja o verbo, seja o advérbio, adjetivo, seja substantivo, substância. Seja tudo. Só não seja mais um.

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  2. Brigado, minha querida! Valeu pelos elogios! Espero que eu consiga mesmo SER esse ser, esse tudo aí que você disse.... É um momento difícil para os sonhadores do mundo. Brigado pela força e pelo prestígio da leitura! :)

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  3. "Pois ele pode ser tudo, menos comum."

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