quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Narcisos e Eros



No nosso tempo, as três idades foram feitas para serem esquecidas: o passado, o presente e o futuro. Não há nada na vida de hoje, diante do seu sabido jogo duro, que não seja presente, passado, ou futuro. A efemeridade dos instantes é cada vez mais o motivo que me faz duvidar dos esforços. Em 2013, ano calendário insignificante, nada mais parece ser eterno. Nunca foi, e isso é fato. Mas o pós-moderno anda me tirando o desejo. Queria ver o reflexo disso em algum amigo meu, em alguém que de fato se incomodasse. Meu inferno são mesmo os outros. Admito. O erótico, hoje, erra. Eros erra. Aliás, justo por isso, e por viver em nosso tempo, que é infinitamente narcísico e pragmático.


            Seres de si-mesmo, seres de ação. O irônico de tudo isso é - eu me pergunto -, afinal, como vocês conseguem ser Narcisos pragmáticos? Olhem, vejam bem, a história está cheia de pueri aeterni, eu mesmo quase que certamente sou um deles, mas vocês são esquizoides, e é isso que me assusta. Querem viver pro tudo? Então sejam Mozarts, Voltaires, Sades, Cazuzas... Não tenham rédeas, amarras, chutem os relógios e os planejamentos, as promessas – sempre impossivelmente éticas! – de final de ano. 


            Em 2013 (ano-calendário metáfora; se fosse 2014, tanto faria...), nada é mais trivial do que desconectar. Bauman foi nosso arauto. Em Amor líquido, já nos mostrava, lá em meados da década de 2000, o que nos aconteceria a nós, que tentamos ser Babel e também Sodoma e Gomorra, “tudo-ao-mesmo-tempo-agora”, na agilidade de uma telinha azul do Livro de Faces. O ciclo é sempre o mesmo, seja com os consumíveis smartphones, com os artistas e as celebridades pop ou com os relacionamentos. A gente se conecta, se usa, se gasta, se desgasta, se cansa do “outro”, e depois joga fora. Desconecta. Descarta. Aliás, não os relacionamentos. Esses nós não descartamos completamente. Colocamos no “cloud”, na nuvem virtual de nossas vidas, salvamos ou estocamos em algum lugar não incômodo, de onde possamos “recuperá-los” em tempos de penúria afetiva e de desterro emocional. Narciso morreu se olhando no espelho d’água de um rio; nós morreremos olhando para uma tela de cristal... Líquido...


            Voltando à “Babel + Sodoma e Gomorra”. Ora, vejamos, o que nós queremos? O que vocês querem? Tocar a face de Deus, do Olimpo (ou de qualquer coisa que se poste sobre as cabeças da humanidade ocidental [pós]moderna e [pós]kantiana), e, ao mesmo tempo, descer ao inferno? Servir a Deus e a Mamon? Queremos – vocês querem!? – as epifanias e as bacanais unidas? Querem ser imortais como os deuses, e ainda assim, serem completo gozo e prazer? Querem uma lama limpa, dermatologicamente testada? Ora, isso não é plausível! As dores dos deuses e dos santos são eternas; são míticas, arquetípicas, não podem acabar. Já os prazeres, esses sempre foram efêmeros, e mesmo os olímpicos precisavam, de tempos em tempos, se nutrir de néctar e de ambrosia, a fim de recuperarem sua potência divina. 


O simbólico de tudo isso está guardado na simplicidade da compreensão do tal “caminho do meio”. Mas os narcisistas e os “homens de ação,” como diria Freud, não sabem esperar: eles querem “tudo dentro”, ou “tudo (de) fora”. E querem agora, antes que o agora acabe. Ué, mas já acabou. E agora de novo. E de novo.... E de novo... De novo... Novo.


            “O fogo, em seu avanço, julgará e condenará todas as coisas”. Heráclito e Buda seriam pós-modernos. É por isso que digo, meu ateísmo esotérico considera as coisas em espirais. Sempre há um retorno, sempre depois do fogo. A sabedoria que podemos adquirir advém da aceitação de limites. Os limites negados pelos Narcisos made in 2013. 


Há uma quantidade inescrutável de conhecimento e de cultura à nossa disposição hoje em dia, e ela está por aí, na nuvem virtual. Isso é ótimo! Isso é péssimo... Quase não dá para ser profundo, se você pode (ou melhor, você subliminarmente deve ler um livro [ou, o que é pior, um best-seller]) por mês. Para que ter acesso a milhões de músicas? Não adianta, não serve, não dá tempo. E, a face enganadora de todo esse processo é que, como diz o adágio citado por Andrew Keen em O culto do amador (uma descrição muito interessante de nossa [des]cultura pós-moderna, baseada na ascensão da web 2.0), “um pouco de conhecimento é algo perigoso”. Em 2013, você só precisa saber “um pouco de tudo”, conhecer “um pouco de cada pessoa”, conectar-se, absorver, desconectar-se. E isso, para nós, é o bastante.


Não faço aqui um diagnóstico. No máximo, é um exercício de anamnese, em que tento trazer de novo à nossa memória o caos social esquizofrênico que ainda estamos gestando – e do qual fazemos questão de nos esquecer. Não sou e nunca fui de colocar minhas candeias sob alqueires, por isso volto a bradar: prestem atenção às relações humanas. São elas que constroem nossos laços, e a vida deve ser feita de uma boa quantidade deles – de bons laços - para que tenha sentido. 


Eros é a força que conecta tudo neste mundo. Os seres humanos, as bestas, os imortais. Com ele, é até mesmo possível ser simultaneamente anjo, humano e fera. Sem ele, não se pode sequer ser mortal. Não se pode ser humano.



sábado, 23 de fevereiro de 2013

A direita sabe o que é a FOME?

    Nas eleições do ano passado, para prefeito, tinha me decidido pela anarquia. Contra a corrupção e todos os desmandos da política nacional, havia abandonado minha postura esquerdista, desiludido com o fato de que até o PT houvera se lambuzado nos banquetes do poder. Votei nulo. Esse ano, depois de muito pensar e, em vista das circunstâncias, me declaro, novamente, um ser humano de esquerda.

    Tendo em vista todos os "mimimis" da classe média (paulistana, no meu caso; a pior delas, na minha opinião), sou OBRIGADO, como HUMANISTA, a me levantar contra as palavras e os pensamentos ensimesmados e narcisistas de quem sempre teve o que comer, de quem sempre, como diz Marcelo Camelo, "acorda já deitado", e que, ainda assim, parece NÃO TER UM PINGO DE COMPAIXÃO.

      Hipócritas! Estudantes de escolas particulares, nutridos pelo leite com pêra do papai e da mamãe (eu também fui, mas não tenho o pensamento egoísta como o de vocês), não conhecem dez por cento da REALIDADE dura de quem precisa se matar de trabalhar para não MORRER DE FOME, de quem às vezes nem forças tem - por estar FAMINTO - para sequer poder pensar no que fazer da vida; esses hipócritas são contra os programas do governo que ajudam aqueles que não tiveram as mesmas oportunidades que eles. E por quê? Porque têm medo. São narcisistas inseguros. Querem o "exclusivismo" dos aeroportos e das seções de frios e de iogurtes dos supermercados, para poderem continuar em sua mediocridade de classe média sempre medrosa, sempre desejante. Em sua maioria, os "antipobres" são homens e mulheres brancos, heterossexuais, graduados ou graduandos em nível superior, e que não suportam a ideia de ver UM NEGRO, UM POBRE, OU UM HOMOSSEXUAL dividindo o país (antes, de sua "propriedade exclusiva") com eles. São egoístas; Narcisos, como já disse. Freud mandou um beijo e um abraço.

     Em virtude desse tipo de ser humano, declaro aqui o meu retorno RADICAL às posturas políticas e econômicas de esquerda, uma vez que eu prefiro aguentar a corrupção do PT, a ter que ver os portavozes dos coxinhas paulistanos, as viúvas da Ditadura de 1964, no poder. Votarei na Dilma, no Lula, para presidente. No candidato petista a governador de São Paulo. Entrei, novamente, na briga contra os desumanos. Porque esse é a VERDADEIRA diferença entre ser de esquerda ou de direita. Em geral, os de direita são individualistas, egoístas; os de esquerda, HUMANISTAS, solidários. Sinto muito, meus caros "liberais", "ultra-liberais" e quetais. Vocês SÃO assim. Não dão esmola, não abaixam o vidro do carro, não olham para o mendigo, para o gari. Têm medo da vida, pois não mais enxergam a HUMANIDADE, nem em si mesmos, nem nos outros - seus IGUAIS. Lamento por vocês. Terão, em mim, todo o respeito, mas, também, toda a OPOSIÇÃO de um adversário consciente, incômodo e questionador.

Viva Lula! Viva Dilma! Viva o Fome Zero! Viva o Bolsa Família! Viva a esquerda na América Latina!

Porque não se faz política com o estômago vazio.
 Aliás, não se faz nada. Nem mesmo ler a Veja ou Adam Smith. 
 Simples assim.