terça-feira, 16 de outubro de 2012

Alheio

      Não me sinto parte de nada, nessa sociedade prestes a explodir. Afinal, que culpa tenho eu se vejo tudo em progressão - geométrica -, e se, assim, coisa alguma faz sentido para mim? Mea culpa. Li demais, pensei demais. O pouco que faço, pouco me satisfaz. 

     Esforço-me constantemente para não pertencer, para me envolver minimamente nesse mundo fugaz e cruel. Minhas relações são parcas, as profundas ao menos sempre são. Eu só queria mesmo era um pouco de paz, e não ter de perder a vida para ganhá-la. A rotina mata. O emprego destroi. O trabalho - assalariado - empobrece o homem. 

      O cliente sempre tem razão. A educação se tornou mercadoria. Qual é a saída para tudo isso? Não há mais alta cultura; perdeu-se o gosto pelo clássico, pelo saber mediado, pelo tempo e pela reflexão, repsonsáveis pela decantação do aprendido na mente a na alma humanas.  

      Após um dia de trabalho e de estudos na metrópole moderna, somos todos destroços. Suor, salário e destroços. A paga pelo nosso viver encalacrado, encurralado e seduzido por vãs promessas de um futuro descanso (e aí cabe a metáfora religiosa cristã: o paraíso que nos deleitará, depois do calvário terreno), essa paga será sempre pouca, sempre seremos pálidas e ridículas cópias de nós mesmos, enquanto entre nós viger e vigiar o capitalismo.

      Somos "corpos dóceis", já dizia Foucault, nosso modelo de vida se baseia no controle e no cárcere. Empresas, hospitais, escolas, manicômios e prisões... Qualquer semelhança é mais do que óbvia. E triste. Fique quieto. Obedeça. Esqueça-se de seus sonhos. Vende-se. Venda-se. Ironicamente, o prazer de fato nunca é para o agora, na sociedade do hedonismo imediato. As contradições realmente explicam muita coisa...

      Nem bem adentrei uma nova(?) vida, e já não gosto do que vivo, do que sinto, do que vejo. Mas sei que meu mau humor e minha insatisfação são necessários ao mundo. Alguém tem que dizer tudo isso. Alguém tem que gritar que assim não está bom! Nossas subvidas só nos trazem a sobrevivência - nos fazem, a cada dia, menos humanos. Mais cheio de gadgets, dores musculares e best-sellers de quinta categoria. Cansei de você 2012. Cansei, porque, infelizmente, eu já lhe entendi. E faz tempo. Muito tempo.
 


      

      



2 comentários:

  1. Meu caro colega Gustavo.

    Acredite, temos muita coisa em comum. Se isso é bom, eu não sei.

    Vamos lá. Cara, na boa, você esta triste e não é por culpa sua. De fato, a sociedade pisa na gente diariamente. Ou viremos como o santo em Assim Falava Zaratustra, ou viremos o próprio Zaratustra.

    O fato é que nós temos de encontrar as forças dentro da gente e não fora. Textos, musicas, poemas, obras de arte, enfim, tudo o que eu e você já consumimos tanto intelectualmente como culturalmente nos indica que a força esta dentro da gente.

    Não deveria, mas me preocupo com o que tem escrito. Eu leio, e de uns tempos para cá só tens escrito coisas de cunho “quero deixar a vida, e não mais permanecer nela”.

    Não que eu não parto da mesma idéia. Eu acredito que não há continuação. Que esse negócio de reencarnação ou continuidade do espírito e da alma nada mais são que idéia que o ser humano criou para fugir da morte.

    Assuma de uma vez oh! Criatura medíocre que tu és ser humano! Assuma que de uma vez por todas que nós morremos e morremos com “m” maiúsculo!

    Infelizmente, ainda, tem gente que acredita que eu sou louco por dizer essas coisas, por pensar desse jeito, e blá, blá blá.

    Mas você deveria parar de se martirizar. A meu ver é um pouco egoísmo da sua parte pensar que o seu sofrimento deveria ser capa de LP ou de um livro muito bom a ponto de virar clássico. Eu não estou dizendo que é isso que você fala ou escreve. Mas é o que eu tenho percebido.

    De certa forma eu não tenho muita paciência para endeusamento de pessoas, seres ou idéias. Aliás, é filosofando com o martelo que você quebra falsos poetas, falsos moralistas.

    Por sua vez, eu sugiro que pare e olhe para si mesmo. Eu não espero uma grande mudança ou que você tenha chegado até aqui no meu comentário para ler tudo isso.

    Não é grade coisa continuar não é mesmo? Somos tão jovens, mas tão cheios de energia... Acho que devemos colocar em prática tudo aquilo que aprendemos com os livros, com as reflexões, etc. Só assim seremos nós mesmos. E não me importo o que digam sobre mim. Essa corroboração de necessidade de status me enoja. E é isso que estraga as pessoas de fato.

    ResponderExcluir
  2. Concocordo com o que você disse. E, sim, abandonei as ilusões religiosas faz tempo. Morremos, e acabou. Sou mesmo bem dramático, talvez faça pra chamar atenção. Enfim, meu blog e meus escritos são o meu divã... rsrsrs... Valeu pelo comentário tão atencioso. Abraço!

    ResponderExcluir