quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Necessidadesejo



A vida

Nos traz aquilo de que precisamos

Por meio daquilo que queremos.

Daí, muitas vezes, percebemos 


Que não precisamos mais

Daquilo que tanto queríamos.

E, então, passamos mesmo a querer

Aquilo de que tanto precisávamos.











terça-feira, 16 de outubro de 2012

Alheio

      Não me sinto parte de nada, nessa sociedade prestes a explodir. Afinal, que culpa tenho eu se vejo tudo em progressão - geométrica -, e se, assim, coisa alguma faz sentido para mim? Mea culpa. Li demais, pensei demais. O pouco que faço, pouco me satisfaz. 

     Esforço-me constantemente para não pertencer, para me envolver minimamente nesse mundo fugaz e cruel. Minhas relações são parcas, as profundas ao menos sempre são. Eu só queria mesmo era um pouco de paz, e não ter de perder a vida para ganhá-la. A rotina mata. O emprego destroi. O trabalho - assalariado - empobrece o homem. 

      O cliente sempre tem razão. A educação se tornou mercadoria. Qual é a saída para tudo isso? Não há mais alta cultura; perdeu-se o gosto pelo clássico, pelo saber mediado, pelo tempo e pela reflexão, repsonsáveis pela decantação do aprendido na mente a na alma humanas.  

      Após um dia de trabalho e de estudos na metrópole moderna, somos todos destroços. Suor, salário e destroços. A paga pelo nosso viver encalacrado, encurralado e seduzido por vãs promessas de um futuro descanso (e aí cabe a metáfora religiosa cristã: o paraíso que nos deleitará, depois do calvário terreno), essa paga será sempre pouca, sempre seremos pálidas e ridículas cópias de nós mesmos, enquanto entre nós viger e vigiar o capitalismo.

      Somos "corpos dóceis", já dizia Foucault, nosso modelo de vida se baseia no controle e no cárcere. Empresas, hospitais, escolas, manicômios e prisões... Qualquer semelhança é mais do que óbvia. E triste. Fique quieto. Obedeça. Esqueça-se de seus sonhos. Vende-se. Venda-se. Ironicamente, o prazer de fato nunca é para o agora, na sociedade do hedonismo imediato. As contradições realmente explicam muita coisa...

      Nem bem adentrei uma nova(?) vida, e já não gosto do que vivo, do que sinto, do que vejo. Mas sei que meu mau humor e minha insatisfação são necessários ao mundo. Alguém tem que dizer tudo isso. Alguém tem que gritar que assim não está bom! Nossas subvidas só nos trazem a sobrevivência - nos fazem, a cada dia, menos humanos. Mais cheio de gadgets, dores musculares e best-sellers de quinta categoria. Cansei de você 2012. Cansei, porque, infelizmente, eu já lhe entendi. E faz tempo. Muito tempo.
 


      

      



domingo, 14 de outubro de 2012

Alquimia



Para se ver livre de uma equívoca paixão

Basta tempo

A cada dia

Uma gota do veneno se destila

(Do veneno do ódio, produto do ex-amor)


Basta esperar

E o tempo


Fará a alquimia





 

domingo, 7 de outubro de 2012

Sem

     Em 2012, estamos sem rumo. Sem rumos. Depois do debacle das antigas estruturas sociais, as quais podemos de bom grado admitir terem mesmo "ido tarde", o fato é que existe aqui um imenso vácuo. Antes, as já sabidas correntes; agora, um sincero e retumbante nada.

     Sem famílias, sem religiões, sem arquétipos, sem heróis, sem avatares - sem crenças comuns, compartilhadas maciçamente.

        Quer ser qualquer coisa? Seja. Se você se ferrar por isso, bem... A culpa é só sua. Se você se der bem, hum... Não fez mais do que aquilo que alguém já terá feito, afinal, o que há de novo em 2012?

      E vejam o drama contido nisso. Vejam que não é fácil caminhar sem ter a quem dar a mão. Se antes o mundo parecia uma prisão (e, de fato, muitas vezes, o era), hoje ele se assemelha muito bem a um imenso abismo, pelo qual tudo e todos são quase que instantaneamente tragados, como se fossem as mais insípidas e fugazes insignificâncias.

   Você acredita na ciência? Na religião? Na política? Na mídia? Nos esportes espetacularizados, baseados no rendimento e no culto ao "esforço", aos self-made men midiatizados e vendidos em belas vestes esportivas? (É claro, sabemos que é a classe média, recém obesificada, que irá comprar tênis de corrida e frequencímetros, para brincar de "estamos sendo saudáveis".)

     Duvido que você ainda acredite, de coração. Bom, posso realmente estar errado, mas farejo, sinto com meus poros, com minhas vísceras, o desepero da desilusão - individual e coletiva.

      Afinal, onde estão as verazes esperanças? Em que recônditos se escondem a força de luta, a empatia, o amor, a sabedoria, para que possas voltar a entender que é impossível ser humano vivendo sozinho.

       Minha neurose me faz escrever esse texto. Uma grande perda amorosa, uma queda. Foi bem do alto, bem dolorida e, de fato, ainda estou caindo. Ela, a oculta musa de meus perdidos sonhos, me diria que estou "caindo na real", que preciso mesmo "crescer", que o mundo é "cada um por si e a psicanálise para todos". Quem sabe ela tenha mesmo razão, pois isso deve fazê-la sofrer bem menos do que eu. Mas, ter razão é muito diferente de estar certo, de estar com a verdade.

     Para mim, a verdade é o mundo dos sonhos, dos loucos, dos inconsequentes. É um mundo que contém representações e assunções de compromissos, em que o futuro é pensado junto com o agora, com o concurso das lições do passado. Ser rebelde, iconoclasta, só é possível quando ainda há ícones e ídolos a serem derrubados. É por isso que, em nossos dias, não há mais rebeldes de verdade. O que há são "revolucionários de boutique empetcados", todos igualmente "diferentes", equivocando-se ao pensar que a negar as tradições é pressuposto para mudar o mundo.

      Não venho aqui propor nada, e não quem possa, nessa tal "pós-modernidade", me criticar seriamente por isso. Afinal, quem pode, hoje, de fato, propor algo? Algo relevante e novo. Ninguém.

    Estamos perdidos. Vendidos como o goleiro deslocado pela "paradinha" no pênalti. Estamos sem rumo. Sem rumos. Sem espaço. Sem recheio. Sem amor.

        Não há eleitos, não há eleitores. Escolher o quê, a quem, quando mais nada que seja verdadeiro pode se tornar modelo ou símbolo perene de admiração coletiva, social, ética e moral? 

         Liberdade é o que temo hoje. Somos livres. Livres para não sermos. Para não sermos ninguém. Ninguéns solitários, sem ideais e sem além. Sem.

sábado, 6 de outubro de 2012

Panaceia

No mundo moderno

A lucidez

(Esse estado inalterado de consciência)

É algo extremamente perigoso

Por sua causa

Morre-se mais facilmente,

De pânico, de infarte,

Ou de desejos suicidas

Ora! Vós, que tendes as drogas,

As panaceias salvadoras,

Que vos torcem o conhecer,

Vós estais no paraíso

Ainda que andeis pelo inferno

Pois, ao contrário dos lúcidos,

Não tendes mais como cair



quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Apatheia

        Trancando todas as portas, a gente pode passar a ser mais ou menos feliz. Mas, afinal, o que é a felicidade? Certamente não é algo como esse texto mind flow, que ora coloco para fora, em digitações um tanto quanto disléxicas e fatigadas. Penso escrever em francês. Cometo outro erro de digitação. Não, isso não sairá como uma Clarice Lispector - there's still a long way to be as good as that, man!

     Os itálicos e as formatações roubam-me um pouco da naturalidade; mas, afinal, tudo o que é espontâneo precisa ser automático? Escrita "fluxo de consciência" não pode ser algo irrefletido, por definição - para escrever, é preciso pensar, concatenar sentidos, realizar uma operação lógica. Mas é aí que esse texto está quase deixando de tratar do assunto que eu queria. O que eu queria?

         Eu quero. Os amores das madrugadas. Mas ser um artista, desses que a gente vê no domingo, não é coisa para mim. A filosofia já me impediu do óbvio, faz algum tempo. A única maneira que tenho de ser organizado é sendo caótico. Esvazia-se a mente. Os pensamentos se esvaem, mas retornarão em poucos segundos. Ah, lembrei!

        Era o amor. Essa coisa sobre a qual escrevo já há alguns anos. De fato, todo o meu pensar se vai no amor. Se faz no amor. Sou puro Eros. A libido está quase sempre no ápice. E, olha só, isso talvez nem seja mesmo um problema. Nossa era vive por Sade. Que é igual a Kant - só que pelo contrário -, primo do Eike Batista, e de quem queira mesmo e sempre ganhar milhões, comer a gostosa, ou ser independente. E dá-lhe imperativos categóricos.

        Li Kant só até um pedaço. Umas quinze páginas, e entendi que deveria parar. A vida é uma só e, na realidade, eu preciso mesmo estar mais em 2012. Mesmo que doa.

        O insensível do mundo é que ele realmente fecha as portas para os loucos. Não os loucos de hospital, pois esses ainda têm uma porta - a da sala de eletrochoque. Eu não tenho portas.

       Bem capaz que eu fosse recusado até mesmo no manicômio, porque o manual psiquiátrico que lá eles têm está defasado - não há ali "Gustavo Adolfo Mugica". Sim. Citar o próprio nome em uma obra literária, em um texto, ou em qualquer outra forma de arte é algo bem breguinha, decadente. Mas isso "está na moda", como diriam os antigos, não? Gustavo Lima e você... Você? Quem?

        O ego realmente não existe. O fluxo de consciência, quando livre, nos deixa ver isso. Podemos ser sempre esquizofrênicos; podemos ser sempre lúcidos. Basta não querer.