quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Nota sobre a ciência


(O texto que publico nesse post foi pensado e redigido como nota introdutória a um futuro livro - que terminarei de escrever não sei bem quando -, em crítica à sociedade moderna e, também, ao monopólio do modo científico ocidental de conhecimento. Vale como balão de ensaio).


Nota introdutória

         Este não será um livro de “ciência”. E quando uso “ciência”, assim, entre aspas (tanto aqui como em outros lugares), sempre estou me referindo àquele modo específico de ser, de viver, e, acima de tudo, de pensar, que grassa entre nós desde que os primeiros raios do Iluminismo nos tocaram, por volta de três ou quatro séculos atrás. Quando me refiro desse modo à “ciência”, trato de – e destrato – tudo aquilo que nos fez, para o bem e (muito mais) para o mal, chegarmos aqui hoje, com esta pilha de plástico e de problemas (quase!) irrecicláveis. Tudo o que a ciência moderna nos deu - sempre preferindo um Comte a um Voltaire, um Hobbes a um Rousseau -, foi um monte de paradigmas de “objetividade”, de frieza e de “correção”(?) metodológica. Notas de rodapé. Referências bibliográficas. A possibilidade dada, a qualquer um (mesmo? ), de que o “experimento” - “fosse ele teórico” ou “prático” - pudesse ser repetido e comprovado por qualquer outro pesquisador, que seguisse os mesmos passos indicados por aquele que realizou a tal “experiência”. Para mim, tudo uma grande balela. Coisa para dar status a alguns poucos “cientistas” (“carneirinhos de presépio” do academicismo, cê-dê-efes “bem recompensados”), enquanto uma multidão de outros se vê alienada da execução e, principalmente, da compreensão da “ciência”.

         Nada disso será reproduzido aqui. As citações, essas sim, serão sempre devidamente creditadas a seus autores – porque não faz parte da minha escrita a desonestidade intelectual -, mas serão feitas “de memória”, à maneira dos antigos. Um tal modo de operar não se deve (como muitos podem pensar) a qualquer espécie de arrogância ou preguiça de minha parte. Não. Pois tudo o que for feito nesse livro terá o simples objetivo de implodir o edifício da “ciência” moderna tradicional, tanto em termos formais, quanto em termos de conteúdo. Porque a ciência que procuro é uma ciência sem aspas. Um conhecer aberto, amplo, disponível a todos. Que não crie clubes de privilegiados ou autoridades intelectuais. Que não separe, mas que una a humanidade. Que não seja uma arma de poucos, em oposição aos anseios de muitos.

         Quero uma ciência realmente moderna, com os ares do hoje. Um conhecimento que, acima de tudo, sirva a todos os seres de nosso planeta, sejam eles humanos ou não. Uma ciência integral, sem aspas, asteriscos ou ressalvas. Um caminho rumo ao despertar do humano para a unidade do conhecimento.

sábado, 22 de setembro de 2012

Excalibur


     A perda do princípio de realidade na neurose e na psicose. Valeu, titio Freud, por nos mostrar como somos medíocres e problemáticos... Ainda assim, prefiro um delírio, um amor, do que qualquer real frio e insípido. Nasci na época errada. Em que flores e beijos não são mais contratos; em que não há mais compromissos ou contatos. Coisa sempre cada vez mais rara de se ver, dois casais se amando e se beijando, desesperadamente, com todo amor, toda paixão e todo gosto. Tudo como deve ser.

    Sabem, é muito doloroso ser como sou. Gasto um bocado de músculos, ossos, energia. Um monte de tempo, investindo em algo para o qual quase ninguém mais liga, sentimentos que não mais existem, para os quais não se dá mais valor

    Dia a dia, aprendo, com muito custo, a colocar-me em meu lugar. Vou matando sonhos, esperanças. Vou me adequando. Até quando? 

   Vejam: a questão se resume basicamente ao fato de que eu, na verdade, só sei ser assim. Como posso me mutilar, ser outro, viver como num espelho? Meu mundo não está invertido. O deles é que está. Argumento psicótico. Ou neurótico. Ou ambos. Mas tá valendo. Prefiro um diagnóstico sincero a uma dor contida, às veias pulsando sem poder gritar. Pós-moderno é o caralho! Sou bem século XIX. Romântico. Amor cortesão, cavaleiros medievais. Palavra dada, é palavra da espada. Metáfora. Mas bem que o nosso mundinho de iPads tá precisando de umas Excalibur e uns Arthures de verdade.

    O amor sangra. Mas, hoje, ninguém mais quer sangrar.

    O amor doa. Mas, hoje, ninguém mais quer doar.

    O amor dói. Mas, hoje, todos só querem as fáceis saídas.

    O amor exagera. Mas, hoje, o exagero se cura com dez ou vinte gramas de paroxetina.

    Não sei ser outro. Aliás, nem sei se devo mesmo, se preciso.

    Mas caí nas paragens erradas. No tempo errado. Tudo me parece um castigo. 

    Sem amor, o que valem nossos atos? Sem o outro, o que significamos, o que valemos?

   Viagens, produtos, experiências de vida, projetos, músicas, cargos, títulos acadêmicos... Que belo monte de merda! Quando for chorar, enxugue suas lágrimas com notas de 100, ou então com seu diploma. O papel é áspero, e vai machucar um bocado o seu rosto, pode ter certeza... 

     Eu sofro sempre quase como calado. Frases e ideias nonsense. O sentir me invade, e é o que me domina. Quando digo que largaria tudo pelo amor, sou contido pelo comum dos homens. E que tédio é isso...

     À merda com o Osho, com os avatares, com o Ágape! Eu quero mesmo é Eros, em toda sua resplandecência e intensidade. Quero chorar, quero viver, morrer e sangrar. Quem não tiver medo, que me acompanhe. Aos outros, boa sorte. Os domingos de TV e os filmes românticos com potes de sorvete no colo lhes mandam lembranças - tenham calma, que eles chegam já. Realizem-se na vida e, um belo dia, verão que, sem amor, sem Eros, nada valeu a pena. Nada.







  




         

        

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Werther

 
   
  sempre

o sol

nos salva

numa nova manhã
 
 
 
 

Poeira


poeira 



vivemos
numa época
em que o
efêmero
sempre
vence
...
..
.







Contentamento



Tomo as rédeas da minha vida no braço

E, afinal, quanta coisa você me ensinou...

Sei que, para mim, é sempre difícil romper os laços

Mas, se é assim que quer

Então eu vou



Aprendo com o mundo

Que as estradas são sempre difíceis e largas

Que a vida demora a ser verdadeira

E, quando é,

Parece que só parecia ser



Mas, eu disse parece...



Quem sabe, dessa vez,

Só dessa vez

Pela primeira vez

Se eu compreender

Se eu for capaz de aceitar

De me desapegar

Se eu liberar a vida

Para que ela me viva

E viva em si

Quem sabe, então,

Tudo dará certo

Ao final

(Se é que há um...)



Buda, Cristo, Gandhi

Foram capazes de tudo

Menos de evitar a perda

A dor

E a morte

Quem sou eu, então

Para querer delas escapar?



Contento-me com o sorriso

De todo o devir



Disponho-me para o amor

E para toda lida

Com que, da vida,

E com dor,

Eu tiver de lidar.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Hoje


Você deve dar um sentido para a sua vida. Por quê? Ah, por que se não ela fica mesmo muito chata, cansativa, sem rumo. Não sou daqueles que sempre buscou dar esse sentido à existência, de modo prático. Na verdade, o que fiz foi muito elucubrar, fugindo e fugindo sempre mais à realidade dos fatos. Agora, aos 28, parece que acordei de um looooongo sono, ou, então, que saí das fossas abissais em que me afogava e, finalmente, cheguei à superfície dos fatos. Graças ao Budismo. Graças à minha namorada. Graças a mim mesmo, também, é claro. Sempre, na verdade, é graças à gente mesma.

Ninguém pode fazer nada por você. E isso não é papo de livro de autoajuda. É coisa simples, quer ver? 

Tente pedir para alguém ir ao banheiro por você. Ou para tomar água em seu lugar, quando você estiver com sede. Não vai adiantar nada, não é mesmo? Agora, pense. Se você quer começar a acordar mais cedo (foi o meu caso), se quer arrumar um emprego, conquistar a mulher da sua vida, ou ir morar com os aborígenes australianos, não importa – TUDO ISSO só depende mesmo de você!

Veja bem, não que você seja um mago ou o que eu seja o Lair Ribeiro. Também não estou reescrevendo o Segredo. Sempre que você quiser alguma coisa, pode ir atrás dela, pode mudar suas atitudes para poder conquistá-la. Mas isso não significa que tudo depende de você. É claro que não. Pois não se controlam todas as circunstâncias da existência. Como ser individual, a única coisa sobre a qual você tem domínio pleno são os seus atos. Mas isso, é claro, se prestar a devida atenção a eles.


O ser humano é um bicho complicado, porque tem esse negócio de “razão”. “Razão para isso”, “razão para aquilo”, “explicação para aquilo outro”... Tenho certeza de que é isso que mais nos cansa. Os outros animais não se remoem. Não se arrependem e nem se lamentam pelo passado; também não ficam cogitando o futuro. Nunca houve entre eles um Descartes. Sorte deles!


Viver como os (outros) animais é viver, também, como as crianças. Olhe para uma criança. Agora. É exatamente isso que ela está vivendo: o agora. Lembra quando você era pequenino e, cinco minutos depois de rolar no chão e sair no tapa com seu amiguinho, vocês já estavam combinando a próxima brincadeira, ou como assustar aquela vizinha chata da rua de trás? Então. Você não tinha gastrite. Nem dor de cabeça. Nem psoríase. E dormia como um anjo. Assim disse o mestre Galileu:


“E traziam-lhe meninos para que lhes tocasse, mas os discípulos repreendiam aos que lhos traziam. Jesus, porém, vendo isto, indignou-se, e disse-lhes: Deixai vir os meninos a mim, e não os impeçais; porque dos tais é o reino de Deus. Em verdade vos digo que qualquer que não receber o reino de Deus como menino, de maneira nenhuma entrará nele. E, tomando-os nos seus braços, e impondo-lhes as mãos, os abençoou.”

(Marcos 10:13-16)



A atitude da criança (assim como a dos [outros] animais) é sábia, pois só toma em consideração o momento presente, e apenas aquilo que nele o próprio indivíduo pode realizar. Ontem já se foi. Amanhã não se sabe. Então, qual é a coisa mais importante que você está fazendo agora? É isso. Exatamente isso. Como se diz por aí, “é o que tem para hoje”.

Viver e agir para o presente é isso. É saber aceitar o que tem para hoje. Só existe o hoje. Pense um pouco sobre isso. É de enlouquecer. Mas é fundamental.

Para mim, o que deu certo foi meditar nos conceitos do budismo. Para você, pode ser – e provavelmente será – outra coisa. Mas isso realmente não importa. O que conta é o que você faz com os limões. Eu adoro limonada.

Durante muito tempo fui derrotista, pratiquei religiosamente (ops!) a autocomiseração. Posso lhes garantir: não deu absolutamente em nada. E, nas condições normais de temperatura e pressão, acho que não dá em nada também para a maioria das pessoas.

Não sei quem foi que disse isso, mas uma das únicas certezas da vida é que ela continua. A outra, mais imperativa, é que ela acaba. Buda intuiu isso - ele viu. Olhe que maravilha. Ele descobriu - para mim, para você, para todos nós - uma verdade universal. Teríamos poupado muito tempo, suor e lágrimas, se tivéssemos seguido conselhos como os dele, ou tais quais os do sábio galileu que citei acima. Mas, na verdade, ninguém precisa de conselhos. Eles, mal não fazem –, mas você não necessita deles.

Tudo de que você mais precisa é o hoje. Você, agindo eticamente, com amor, humildade e compaixão, de posse de todas as suas virtudes e defeitos, nesse belíssimo e finito hoje, o único dia em que tudo pode ser feito.

Se não puder (ou não conseguir, não quiser) agir hoje, tudo bem, não há problema. Só há um dia a menos, para tudo aquilo que você pode ou quer fazer em seus prováveis 70, 80 anos de fama. Também não se arrependa. Amanhã tem mais. De novo.

sábado, 8 de setembro de 2012

Aurora


        Faz quase dez anos que eu penso sobre o mundo. Que especulo quase continuamente sobre a vida, sobre essas coisas do "caos" que é (con)viver em sociedade. Faz esse mesmo tempo que reflito detidamente sobre isso, que penso, de fato. Mas sempre pensei. Todos nós o fizemos, fazemos e faremos. Diuturnamente. Acordados ou em pleno sono. REM. Em piscares-de-olhos eletromagnéticos, nos colocamos dispostos em frente a telas de LED, de plasma e de LCD. Em alguns segundos – no máximo em minutos -, fazemos aquilo que nossos pais e avós se orgulhavam de realizar em várias horas.

        A espera, a demora, já não fazem parte de nosso vocabulário. Para o bem e para o mal. Em meio à tanta desordem, rodeados de touchscreens resplandescentes, talvez nos vejamos cada vez mais próximos da boca de um abismo tenebroso, de um outro tempo, em que uma cenoura custará mais do que um gadget qualquer. O mundo moderno pode ter sido uma grande conquista, com todas as suas "Revoluções", aparatos e "evoluções" tecnológicas. Pode ter saído daquilo que nós, senso-comum, adoramos (sem saber direito por quê) chamar de "A Idade das Trevas" ("aquilo" que existia lá por volta dos séculos XIII, XIV, quando o mundo que nos é mostrado na escola {ocidental!} era dominado pela Santa Sé), para se dirigir ao pórtico iluminado da razão, a partir do qual se adentra um mundo sem falhas, governado por certezas, garantias e pontos finais. Bem, quem puder atentar um pouco para o que acontece a nossa volta nos dias de hoje, verá que, obviamente, esse projeto de civilização faliu. E há, certamente, algumas razões para isso.

        Muito aquém de querer esgotar o tema, a minha posição argumentativa visa apenas a elencar uma série de fatores que, a meu ver, constituem a espinha dorsal do estado de coisas em que se encontra(m) a(s) nossa(s) sociedade(s), nos tempos que aqui passam, diante de nós. Um "aqui" um tanto quanto indefinido, mas longe – muito longe! – de poder ser visto como gostariam as teses de uma ciência "farrista" pós-moderna. A pós-modernidade não existe. Não há uma tal coisa, quando se sabe, por exemplo, que os chineses que produzem os iPods da classe média ocidental(izada), esses mesmo chineses, não têm acesso, no mais das vezes, a sequer um prato de comida decente, ou a uma cama e a um banheiro que mereça tal nome. Não há mundo "plano", numa sociedade que se construiu cheia de desníveis e de arestas. Tudo isso é balela, ideologia de consumo para "aliviar a barra" da classe média – a nossa "barra" -, sem que nos sintamos culpados pelo fato de a estrada da modernidade ter dado numa rua sem saída.

          A possível existência de uma "pós-modernidade" nos salvaria de bater com o carro no muro. Mas não é isso que temos para hoje. Nosso prato talvez seja mesmo um pouco ruim de digerir, mas, mesmo faltando-lhe a leveza de nossas sempre prestimosas ilusões (que tanto buscamos fabricar, adquirir e engolir sem deglutir), acho que chegamos a um ponto em que não há retorno. Os arrependimentos (um tanto insinceros e casuísticos, convenientes mesmo) de nada nos valerão, em um momento em que a água está subindo pelas nossas cinturas. A hora é de olhar para frente. Respirar o restante de humanidade que ainda nos resta (talvez mais uns dez mil anos, coisa grande para nós, mas micharia para o cosmos!), tentando descobrir uma nova saída. Um fato novo, diferente do habitual. Algo que não seja a ciência. Que seja também ela, mas não só ela. Que nos dê garantias de algo mais além de "eficiência" e de "resultados". Que nos mostre nossos erros. Precisamos de uma (nova?) ética. É isso que irá nos salvar. Ou, pelo menos, é isso que nos dará, em meio à tormenta, um novo barco para navegar nesse vasto oceano em que nos encontramos – esse mare nostrum chamado VIDA. 

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

"Eu tenho, você não tem..."



         Hoje, pensando sobre uma "notícia" que vi na internet, veio-me à cabeça a necessidade de falar um pouco sobre como nossa sociedade está doente. Deem uma olhada na matéria do link abaixo, e logo a seguir, conversamos.


1) http://www1.folha.uol.com.br/mercado/1148624-sacolinha-de-papel-de-grife-e-vendida-por-us-290-nos-eua.shtml

        Lendo a primeira matéria, a sensação que tive foi de completa indignação e total nonsense. Perguntei eu aos meus botões "Será que ninguém percebe que isso é APENAS UMA SACOLINHA DE PAPEL? Ah, mas é claro, ela tem dois furinhos metalizados em cada lateral (para as suas coisas "respirarem", afinal, suas coisas são muito importantes, têm vida... #sóquenão...). 

         Aqui está o mais novo(?) objeto de consumo fashion, vendido pela bagatela de 290 dólares. É óbvio que dá muita vontade de comprar, não é mesmo? Ainda mais por esse precinho... Um verdadeira pechincha!!



       Agora, voltando a falar sério: ISSO É APENAS UMA SACOLINHA DE PAPEL, com o carimbo de uma grife de moda famosa, e duas argolinhas de metal. Como isso pode ser "moda"? Como pode representar poder, status? Como? Se vemos alguém desfilando por aí com roupas caras, carrões e coisas supérfluas em geral, ainda que tudo isso seja fútil, dispensável etc., nesse caso ainda conseguimos encontrar alguma justificativa, alguma explicação que seja, para a posse daquele obejto de desejo, de fetiche consumista. Mas, de fato, no caso dessa sacolinha, o consumismo e a necessidade de se mostrar um pretenso poder chegam a um paroxismo surreal. É aberrante.


     Para (quase) tudo porém, podemos encontrar uma explicação. Vou tentar dar a minha, no arriscadíssimo e completamente insano caso da tal sacolinha. Nessa história, como em muitos do que se pode dizer sobre a posse e o consumo supérfluo, há necessidades intrínsecas escondidas por trás dos atos dos sujeitos. Explico.

           É claro que boa parte de nós não gastaria quase 300 dólares em um simples saco de papel. Mas isso não mostra que somos "melhores" do que os "malucos" que adquiriram um exemplar dessa "nona maravilha do mundo". Não. Isso mostra, no caso de nossa sociedade capitalista adoecida, que, muito provavelmente, apenas a maioria de nós não tem dinheiro para realizar a mesma loucura.

          Entendam, meus caros: a principal (e talvez a única) função social de um produto de luxo é mostrar a riqueza que se tem. Ou melhor, mostrar quanto dinheiro e posses estão sobrando, isto é, que são supérfluos. Quando alguém compra uma Ferrari e passeia por aí com ela em um belo domingo de sol, está, na verdade, dizendo a todos que o veem: "olha como eu não preciso de um milhão de reais, como eu posso gastar essa fortuna toda em apenas um objeto, o meu carrão importado". Mas ninguém é um demônio simplesmente por isso. Isso é histórico, e até mesmo antropológico, longinquamente social. Já na Idade Média, as mesas fartas das cortes, cheias de carnes de caça e de vinhos, serviam para, além de satisfazer os estômagos, também rechear os egos reais, sempre carentes de poder e veneração. (Os poderosos são sempre os mais carentes). A abundância mostrava poder. Também em algumas tribos indígenas da América do Norte, sabem-se de festas, grandes acontecimentos sociais cíclicos, anuais, que serviam para que os chefes indígenas, de facções tribais diferentes, pudessem, por meio da exposição social e da troca de seus bens, declarar e ratificar o seu status de chefe perante seu grupo. Dito isso, passemos ao meu ponto, pois é óbvio que eu não acho algo realmente aceitável que se gastem 300 dólares em uma sacola de papel.

            Se antigos reis, chefe e caciques, ainda que guiados mormente por vaidade e desejo de poder, exibiam suas posses em praça pública, o fato é que, lá, naqueles casos, ainda havia algo para ser mostrado. O luxo carregava em si um conteúdo concreto. Os poderoso tinham, de fato, um poder. No caso da sacolinha de papel, isso está longe de ser a verdade. 

           Em nossa sociedade capitalista, os egos estão cada vez mais inflados. E cada vez mais vazios. Na falta de algo que nos preencha de verdade, colocamos para dentro apenas mais vazios, de sentimentos a mercadorias. Não havendo como nos diferenciarmos da massa (coisa que é fundamental para o ser humano), apelamos para a posse e a exibição de coisas, que não são em verdade nossos atributos, mas tentativas artificiais de nos lançarmos à sociedade, mostrando-lhe algo  de valor de que dispomos. Mas uma sacolinha de papel de grife, ou um carrão todo vermelho e fálico não são nossos atributos. São coisas, apenas coisas, que alguns de nós podem ou não comprar. 

          Por vivermos vidas mormente sem sentido, sem propósito, não conseguimos nos desnvolver como verdadeiros seres humanos. Abdicamos dos prazeres reais, dos amores, da comtemplação, do ócio, da elaboração e da fruição da arte, da arte com significado. E é assim que, imersos em um sistema que mais parece um pântano lodoso, por estarmos cada vez mais atolados em um movimento vertiginosos de massas - muito pela correria do mundo do emprego e da busca pela "excelência" profissional -, é por isso que, de certa forma, o sistema se retroalimenta, e ganha duas vezes. Nós, perdemos duas.

            Sem tempo para sermos humanos, para criarmos e desenvolvermos nossas reais capacidades e gostos, vivemos uma vida que não é nossa. A serviço de logotipos e de marcas, nossos deuses infinitos, talvez a única compensação que a maioria de nós tenha tempo ou dinheiro para obter, seja a de comprar - e mostrar - produtos supérfluos, que não dizem ao mundo nada de verdadeiro e realmente significativo sobre si.

          Comprar uma sacolinha de papel de grife (e o fato mais surreal de que ela tenha sido idealizada e fabricada), por mais bizarro que seja, mostra a que ponto o vazio de nossa vida moderna chegou, para que tenhamos que possuir qualquer coisa - desde que essa coisas seja carimbada por uma marca "importante" -, para que possamos nos mostrar ao mundo, nos separar do bolo social e de sua massa. Como disse no começo, isso é algo bastante social, o querer humano de se diferenciar. É elemento constitutivo do nosso conviver em sociedade. Mas o fato é que até esses dsejo legítimo perde seu real significado e função psicológica, em um mundo em que as prisões coletivas que nós mesmo criamos e administramos nos impedem de nos tornarmos humanos, capazes de criar, sentir, acolher, revolucionar, perdoar e amar. Ser Picasso não é o mesmo que pendurar uma réplica da Guernica na sala de estar. É bonito, impressiona as visitas, os amigos, mas não te torna mais criativo ou sensível. Criar e sentir nos torna nais criativos e sensíveis. Mas precisamos de tempo para isso. Tempo que não mais temos, inclusive porque você e eu estamos agora no Facebook e afins, e você está lendo esse artigo, que talvez não lhe sirva mesmo pra muita coisa. Desliga o PC e vai ler um livro!